27 | Ré significante

05Ago10

Rolland Müller digitava com sérias expressões no rosto. Às vezes comentava algum assunto, criticava superiores ou, algo mais raro, praguejava corruptos. Quando estávamos sós na redação, contava-me sobre o começo da sua carreira no jornal e sobre as históricas ligações da Gazeta Capixaba com o poder, durante e depois da ditadura. Falava demonstrando prazer com o proibido, como se daquele jeito pudesse vingar-se de todos seus desafetos.

Sempre gostei das histórias, das biografias, das entrevistas, no entanto, é provável que goste muito mais das versões que faço mentalmente. Conserto as histórias, resignifico. Nas conversas com o senhor Müller, tinha vasta oportunidade para esse exercício. Eram como salvação dos meus dias, pois para todo o resto o meu desinteresse era intenso. Nem os encontros com Ellke pelos corredores da redação faziam diferença. Nada mais interessava.

Sugeri ao senhor Müller que escrevêssemos um livro com aquelas memórias depois que ele se aposentasse. Deve ter sido a primeira vez que mencionei a ideia de um livro. Aquele foi meu último mês na Gazeta Capixaba, saí decidido a realmente escrever. A carne tinha mostrado-se ineficiente para me oferecer libertação, talvez as ideias, voltar às histórias da família, da cidade ou do universo pudessem me dar algum conforto. Um passo atrás, uma ré, para novo impulso.

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3 Responses to “27 | Ré significante”

  1. Não é pela semelhança de nomes, mas tem algo do Henry Miller. Não é o sexo, é a maneira de dizer dele, sendo ao mesmo tempo figura e fundo de uma tela pintada com personagens. O melhor do que não é politicamente correto está em frases como “Sempre gostei das histórias, das biografias, das entrevistas, no entanto, é provável que goste muito mais das versões que faço mentalmente.” Esse misto de desesperança com certeza da própria opinião tem o anti-heroísmo e a frustração dos anti-heróis, e a citação do nome de jornal capixaba localiza tão bem o que é a máquina institucional (digo no geral, pouco importa o mundo capixaba) que é possível saber que a realidade mesquinha das coisas foi escrita, ou melhor, não foi: porque Tchekhov estava certo, é preciso mesmo deixar, retirar coisas do texto. Aí aparece o que é mais importante.


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