O asteroide e o eremita

10Nov11

Um asteroide passava pelo contorno que a Lua faz em volta do planeta da mesma forma que a minha faca cortava a gema do meu ovo estrelado, ambos precisamente às nove e vinte e oito. Do corte da faca, o caldo amarelo se espalhava banhando o arroz e as linguiças alemãs da Pavelka; do corte da rocha espacial transbordavam meus pensamentos de habitante de asteroide – quase um eremita -, escorrendo por todo o Espaço.

Você entende isso, não é? As pessoas têm diferentes formas de encontrar seja lá o que elas têm que encontrar… E não estou discutindo se buscam Deus, paz, sentido, elas mesmas ou qualquer outra coisa…  Mas pessoalmente, não tenho certeza sobre a forma, sobre o que eu busco nem se eu preciso encontrar. Não me incomodo com isso o tempo todo, mas às vezes é perturbador. No fim das contas, é como tentar acertar um alvo em movimento. O desejo não espera parado você encontrá-lo. Se move (como a Terra e a Lua) e você pode passar a 324 mil quilômetros do alvo e seguir distanciando.

A pancada das plantas dos pés, tum, ecoou em toda aquela imensidão negra, enquanto eu flutuava, prolongando a apneia, a um palmo da superfície.

Você deve saber como eu me sinto contemplando os corpos celestes e todas as maravilhas do Universo. Fico abduzido enquanto tento dar sentido a essas rochas espetacularmente soltas no vazio. Sinto uma mistura de prazer e sofrimento. Você quer ver? Enquanto, eu passo ao lado da Lua, admirando as pintinhas na superfície, que se pudesse juntá-las acharia um coelho ou outro desenho, ao mesmo tempo imaginando o que há do outro lado, as rodas de samba sob as árvores de sapoti, as batatinhas hidropônicas… Então uma mensagem advinda de um satélite apita às dez horas da noite, e chama para por os pés no chão, mas quem sou eu para reclamar? Sou só um asteroide passando por ali…

Voltei logo à superfície para buscar o ar e pensei desesperado, Meu Deus, ainda falta a volta inteira.

Talvez fosse bom conversar sobre isso tudo com você… Aliás, se lembra quando eu disse que faltava uma música do Jorge Ben que fosse feita para você? Mas tem, sorriu pelo telefone. Engraçado como eu quis ter uma música para você ouvir no rádio. Não tive isso, mas contei uma historia e você acabou ouvindo… ou vendo uma estrela cadente nesse céu de ilusões casadas e descasadas… E um dia, quando todos esses laços se quebrarem, ainda serei um asteroide eremita viajando entre os orbes incandescentes que flutuam no vazio gélido, e fatalmente se resfriam, e resfriam, e resfriam.

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6 Responses to “O asteroide e o eremita”

  1. genteeeemmmm mega laços-hiperlinks-criativos!
    parabéns!
    mas se depois disso tudo você não conseguir ouvir porque não quis ou por algum problema, subirei, descerei nã nã nã nã
    vamos publicar esse blog, minha gente.

  2. Agora mais tarde. Hein, esquece o que eu te falei sobre publicar esse blog. Que idiota! Ele já é publico. E depois você se apropria da ferramenta hiperlink com muita subversão. Faz um texto que me lembrou o tomo I “ULTIMO ROUND” do Cortázar no texto “Um de tantos dias de Saigon” que agora recorto para te instigar. Você precisa ver como ele referência tudo o tempo inteiro, mas muito mais trabalhoso porque na época dele não tinha hiperlink. Cara, você tem que ler isso. Sei que você anda lendo umas coisas aí, vi lá no blog do Elton sua conversa. Parenteses: fiz uma indicação preciosa do Lacan sobre a lógica do fantasma, mas ele nem me deu confiança (abafa,rs). Voltando. Tente ler o ultimo round tomo I do Cortázar, é super gostoso de ler, tem figurinha, desenho, muita referência, sua cara, só que mais antigo. Vai um pedaço:

    “(…)11:10 Monsieur Seerre, o carteiro, gritando da entrada, Monsieur Cortansan, Monsieur Cortansan!, pensar como classifica seleciona mete em sua bolsa me entrega e faz assinar recibos de oito catorze cinco quatro mas nunca menos de duas cartas diárias e ainda não consegue pronunciar meu sobrenome. 11:15. Carta de Octavio Paz enviada de um povoado do Nepal (Mass Midia: para acompanhar os acontecimentos de maio na França, ele comprou um transistor de ondas curtas, a voz dos locutores da Rádio Luxemburgo misturando-se com as ladainhas budistas ao entardecer, mantras mais flashes: WE ARE IN THE ATOMIC AGE, BABY). Carta de Christiane Rochefort (…)”

    e por aí ele vai…
    bjo.

    • preciosa sim. ela me levou ao seminário 14, e ao gosto de lacan pela lógica, talvez desde o liceu clássico. lembrei que já passei um final de tarde num bar da rua senador vergueiro, no flamengo, numa conversa com um psicanalista que desenhava num guardanapo com uma caneta nanquim os “matemas..; eu já tinha preferido a palavra fantasma por causa disso, por causa “desse” fantasma se escre-ver. depois de tua indicação eu pensei que estava rodeando o ponto nodal do ato de escrever,como quem nunca estivesse nele, mas já imerso nisso,.. e como henry miller nessa época para mim representava um avanço no estilo desse ato (a obra dele foi minha saída possível da de proust, assim como a de joyce estava sendo em relação à de oscar wilde) eu fiz uma espécie de remember top hit parade do que mais os blogs, para mim, contextam: o suporte clássico, subjetivo também, de quem aceita escrever.

  3. enfim, nós três numa página de livro!

    😉

  4. esse final é muito bonito..

    “E um dia, quando todos esses laços se quebrarem, ainda serei um asteroide eremita viajando entre os orbes incandescentes que flutuam no vazio gélido, e fatalmente se resfriam, e resfriam, e resfriam.”

  5. 6 Anónimo

    Passeando pelo blog, lendo pela décima vez esse conto e …. cacildis*! Só agora me toquei dos hiperlinks! Energia demais atrapalha a vida de uma pessoa, alguns pontos (links) podem mesmo passar despercebidos. Além disso, um parágrafo em especial chama demais a minha atenção, Mr. Tsukimi …

    *http://www.dicionarioinformal.com.br/cacildis/
    Um dia eu ainda aprendo a fazer hiperlinks.


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