Retirado das águas

20Dez11

Há um último tom de azul do dia, quando você só pode perceber que ainda não é noite se olhar para o céu, porque aqui embaixo já está tão escuro o quanto pode ficar. Com sorte, sua visão da abóbada pode se dar entre copas de palmeiras imperiais, sem nenhuma nuvem, só há este tecido de cor pré-estelar, que se faz como se o Globo submergisse lentamente, mas no fundo do mar não encontrasse a escuridão completa, pois logo aparece a primeira estrela, que dizem que é Vênus, que na verdade é um planeta; e, como um farol, a Lua também rompe o índigo… e logo você já quer uivar.

Tudo isso é fascinante, não é L? Mas se passa uma presa de formas sensacionais, o seu canino chama… O bom e velho canino torto e pulsante quer penetrar aquela carne túrgida. Aquela luz da Lua é tão linda, sim, sim… Mas que belas formas azuis! Você quer penetrar, você quer comer, você precisa comer!

Eu não teria dado ouvidos a Bagheera se estivesse me sentindo animado assim, mas sabe aqueles dias em que nada te desafia? Em que a submersão do planeta talvez seja mais profunda e você não quer ver as estrelas, não quer ser desafiado; tem um misto de preguiça e arrogância, uma vontade de ser deixado em paz, quieto no seu canto, sem que nada mude de lugar, sem que sequer o tempo se mova.

Ninguém me percebeu chorando quando quiseram me promover na aula de natação. Não notaram porque eu estava dentro d’água. Eu queria continuar na turma da tia, e não ir para a equipe do tio… Que idiota que eu sempre fui! Em outra vez, minha mãe não me viu chorar e uivar quando me colocaram naquela bacia de água fria, no meio da madrugada e me esfregaram qualquer coisa pelo corpo para catapora ou sarampo.

Ela ficou em casa. Tinha um filhote na barriga e esses ambientes não seriam adequados para sua condição. Eu lembro dela acenando pela janela da Aristóbulo Barbosa Leão. Depois nos mudamos de lá, mas continuamos por muitos anos nas redondezas, às margens do Rio Verde. Curiosamente, ainda lembro de como me senti sentado na bacia, dentro d’água. Por que isso me impressionou tanto? Ah, mas que idiota que eu sempre fui!

Dentro d’água permaneci durante anos resistindo aos chamados de Bagheera até finalmente aceitar acompanhá-lo no caminho cósmico. Ele não precisava provar seu argumento, era o meu destino e nada pode o medo contra isso. Para um asteroide como Bagheera só restava esperar, me orbitando, enquanto eu me debatia e lutava contra o tempo, contra Saturno, e ignorava a existência e a ameaça de Shere Khan.

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One Response to “Retirado das águas”

  1. Meu querido retirado das águas, ouvi dizer que alguém respondeu sua arte de responder cartas alheias.
    🙂


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