Minha saúde é frágil

12Jul12

Ouço o som dos edifícios desmoronando uns contra os outros, o som das sirenes, dos alarmes, dos apitos, tudo cada vez mais perto, enquanto eu estou só, deitado na minha cama, no meu quarto. A luz de fora entra pelas frestas da cortina e a janela me engana, parece uma porta, prestes a ser arrombada, e infelizmente traz a morte.

Só me resta então aceitar. Mas tinha que ser assim: sozinho, longe de todos que eu gosto, sem mãos dadas, sem abraços, sem ninguém em volta da cama? Então é este o fim da minha aventura? Tão simples. Me sinto resignado, de alguma forma, capaz até de me orgulhar do meu traço errático e ilógico na terra.

Estas semanas tem sido realmente solitárias, de ruas cada vez mais vazias, eu deveria já ter imaginado que a morte trabalhava por perto.

Sinto mais uma vez aquela que talvez seja a minha sensação mais antiga: meus dedos e braços estão inchados, minha cabeça está enorme, minha boca parece responder por metade do meu corpo; sou muito maior que tudo que me rodeia, mas ao mesmo tempo sou pequeno como uma semente – não há espaço em volta, flutuo somente na minha própria existência.

Levanto e caminho até a janela da sala. A casa parece muito mais assustadora do que em qualquer outra madrugada. Eu sinto medo, me acho frágil e impotente. Incapaz de me defender. Vejo a fresta da porta do meu apartamento que dá para o hall do andar e temo que ela também possa ser arrombada. O corredor lá fora também está aceso, e por um segundo achei ter visto alguém pelo olho mágico.

São três e trinta. Tenho uma reunião marcada para logo mais, às oito. As máquinas estão nas ruas, escalpelando o asfalto, com todas suas luzes acesas, com toda sua linguagem ameaçadora de sons e movimentos.

Elas vão dominar o mundo! Antes acreditávamos que o destino seria capaz de trazer todo o amor que precisássemos, agora não, acreditamos mais nos algoritmos, na rede de informação, no compartilhamento, na comunicação sufocante sem limites. Acreditamos mais na maquina do que na providência. A rede é o Senhor e nada me faltará. Só o Google salva.

O bezerro de ouro agora está nas nuvens – ou na cloud -, e eu me sinto parte demais da idolatria para me propor a descer esta montanha. No fim das contas todo mundo se acostumou e acha o bezerro muito bonito.

Ninguém do lado parece interessante e ironicamente achamos que alguém parado em frente a uma máquina longe dali pode mesmo ter algo demais a dizer – e que seja urgente, imprescindível saber agora! É melhor voltar e me deitar, minha saúde não está lá essas coisas e eu não devo abusar.

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One Response to “Minha saúde é frágil”

  1. ótimo texto, talvez o mais profundo da saga matt kane. tem um pouco da impiedade daqueles primeiros, onde tinham umas personagens, umas donas elegantes e confusas. agora essa também plástica fúria vai para o mundo (isso já desde um texto que investiga o universo, posts atrás, e a sutil questão religiosa, que agora vem na excelente e velada citação da descida de moises do monte sinai. a questão da idolatria nisso, na cloud, é imensa e esse parágrafo é todo bem pertinente.).. o acontecimento da metrópole (parece isso) é vasto demais, e de forma que essa ‘morte’ escrita (pela narrativa de uma crônica, afinal) não se sabe se ameaça do lado de fora ou de dentro da porta. nisso cabe bem o salmo 23, o do “o Senhor é o meu pastor, nada me faltará”…. o que mais adiante dirá “ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo;” …


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